quinta-feira, 24 de março de 2011

Palavras Gastas

Num dia em que roubaste todas as rosas do jardim e chegaste ao pé de mim de mãos vazias, tenho-te a dizer que todas as palavras estão já gastas e o pouco, o medíocre que ficou não chega para afastar a sombra que permaneceu. Gastaram-se os olhos, gastaram-me as mãos, gastou-se a voz. Já nada há para dar, nada a dispor, nada a receber, embora sempre tivesse acreditado, acreditado na possibilidade de tudo. Agora nada é diferente (…) os teus olhos são iguais a tantos outros que olham numa determinada direcção, as tuas mãos são banais e nada acrescentam a todas as outras e até a tua voz, até a tua voz que desde sempre permaneceu em mim, reduz-se agora a zero. O mundo voltou a ter movimento, depois de ter estagnado, depois de ter estremecido e do silêncio não passar de murmuros de revolta. Não há mais nada a dizer. A voz calou-se e as palavras esvaem-se. Tudo agora é inútil e não passa da inevitabilidade de um “Nada”. Escuta! Escuta-me uma última vez. Eu prometo que não ocuparei mais do teu tempo, prometo que não mais te chamarei à razão. Ouve-me! Ouve-me! Tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém, mas quero-ta dizer. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar, para que não se extinga o seu lume. São palavras… Palavras de despedida, palavras que agora fazem todo o sentido. Hoje já passo pelas coisas sem as ver, se alguém chamar por mim que eu identifique contigo, já não respondo nem perco tempo a olhar para trás, hoje já não respiro teu corpo, já não sou a menina que um dia adormeceu nos teus olhos… E hoje, mesmo sem ti, hoje sou feliz, pois sinceramente… já não preciso de ti para nada!